Como surgiu o Protocolo Coimbra? A história por trás do uso da vitamina D nas doenças autoimunes
Hoje, médicos de diferentes países utilizam uma abordagem terapêutica baseada na utilização de doses individualizadas de vitamina D no acompanhamento de pacientes com doenças autoimunes. Mas como essa história começou? O chamado Protocolo Coimbra nasceu no Brasil, a partir das observações clínicas e das pesquisas do neurologista brasileiro Dr. Cícero Galli Coimbra, professor e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM).
Uma observação clínica que despertou uma pergunta
Como acontece muitas vezes na história da medicina, uma observação feita durante o acompanhamento de um paciente ajudou a despertar uma nova pergunta científica. Um paciente com doença de Parkinson, que também apresentava vitiligo na região frontal, estava utilizando vitamina D. Durante o acompanhamento, foi observada repigmentação da área de vitiligo. Uma observação isolada não comprova a eficácia de um tratamento, mas pode gerar uma pergunta: poderia a vitamina D estar interferindo na atividade de uma doença autoimune?
2013: um estudo brasileiro ajudaria a abrir esse caminho
Em 2013, Danilo Finamor, Cícero Galli Coimbra e colaboradores publicaram um estudo piloto que avaliou o uso diário de vitamina D3 em pacientes com psoríase e vitiligo. O trabalho incluiu 25 pacientes: 9 com psoríase e 16 com vitiligo. Os participantes receberam 35.000 UI de vitamina D3 por dia durante seis meses, acompanhadas de dieta com baixo teor de cálcio e hidratação mínima de 2,5 litros de líquidos ao dia.

Nos pacientes com psoríase, houve redução significativa da gravidade avaliada pelo PASI. Entre os 16 pacientes com vitiligo, 14 apresentaram algum grau de repigmentação, variando entre aproximadamente 25% e 75%. Durante o período estudado, os autores não observaram hipercalcemia nem comprometimento significativo da função renal.

Do Brasil para o mundo
O interesse pela abordagem desenvolvida pelo Dr. Cícero não permaneceu restrito ao Brasil. Médicos e pacientes de diferentes países passaram a buscar informações sobre o Protocolo Coimbra, formaram-se redes de médicos treinados e surgiram organizações dedicadas à divulgação e ao suporte relacionado ao protocolo.
Na Alemanha, a CoimbraProtokoll Gemeinschaft mantém um portal dedicado ao Protocolo Coimbra: https://coimbraprotokoll.de/

Na Itália, existe a Associazione Italiana Protocollo Coimbra, criada em 2020, que reúne informações sobre o protocolo e inclui entre seus objetivos a divulgação de informação e o apoio à pesquisa científica: https://www.associazioneitalianaprotocollocoimbra.it/

No Reino Unido, o Protocolo Coimbra também é discutido pela Overcoming MS, organização dedicada à esclerose múltipla. https://overcomingms.org/program/sunlight-vitamin-d/coimbra-protocol

Ela demonstra, entretanto, algo historicamente relevante: uma abordagem médica desenvolvida no Brasil ultrapassou nossas fronteiras, mobilizou médicos e pacientes em outros países e passou a fazer parte da discussão internacional sobre vitamina D e doenças autoimunes.
2025: 95 pacientes com psoríase acompanhados na Índia
Nesse movimento de internacionalização encontramos a médica indiana Dra. Renu Mahtani. Em 2025, Mahtani e colaboradores publicaram uma análise retrospectiva dos prontuários de 95 pacientes adultos com psoríase moderada a grave acompanhados durante 12 meses.

O PASI médio passou de 17,83 no início do acompanhamento para 6,52 após 12 meses. Ao final, 73 dos 95 pacientes (76,8%) apresentaram redução de pelo menos 50% no PASI e 41 pacientes (43,2%) atingiram redução de pelo menos 75%.

Da observação clínica à construção da evidência científica
Muitas descobertas começam com uma observação. A observação gera uma hipótese; a hipótese precisa ser investigada; os resultados precisam ser medidos, publicados, discutidos, reproduzidos e submetidos a desenhos de pesquisa progressivamente mais rigorosos. Foi assim que uma observação clínica no Brasil levou a um estudo piloto publicado em 2013 e, anos depois, encontramos uma série clínica maior publicada na Índia. A história científica continua sendo escrita.
Onde entra a resistência à vitamina D?
Uma das hipóteses que fundamentam a abordagem desenvolvida pelo Dr. Cícero é que algumas pessoas poderiam apresentar uma menor resposta biológica à vitamina D. Por isso, dentro do Protocolo Coimbra, a avaliação não se limita ao valor da 25(OH)D. Outros parâmetros do metabolismo da vitamina D e do cálcio são acompanhados, e o PTH — paratormônio — é utilizado como marcador indireto da resposta biológica à vitamina D.
O Protocolo Coimbra não é simplesmente “tomar vitamina D”
O Protocolo Coimbra envolve avaliação médica, individualização da estratégia terapêutica, acompanhamento clínico e monitorização laboratorial. Como a vitamina D aumenta a absorção intestinal de cálcio, medidas específicas de segurança fazem parte do acompanhamento, incluindo restrição alimentar de fontes concentradas de cálcio, hidratação adequada e monitorização do metabolismo do cálcio e da função renal. Doses terapêuticas de vitamina D não devem ser utilizadas por conta própria.
Uma história que também faz parte da minha trajetória
Minha aproximação com essa história começou em 2018, quando passei a trabalhar com o Dr. Cícero Galli Coimbra e a acompanhar pacientes com doenças autoimunes tratados segundo essa abordagem. Como oftalmologista, uma pergunta começou a me acompanhar: seria possível investigar cientificamente essa estratégia também em pacientes com uveítes autoimunes? Essa pergunta saiu do consultório e entrou na universidade.
Durante meu doutorado na Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP/EPM, em cotutela com a Universidade de Barcelona, investiguei o uso terapêutico de colecalciferol em pacientes com uveítes autoimunes por meio de um ensaio clínico randomizado e duplo-cego. Mas essa é uma outra história — e merece um artigo inteiro.
Referências
FINAMOR, D. C. et al. A pilot study assessing the effect of prolonged administration of high daily doses of vitamin D on the clinical course of vitiligo and psoriasis. Dermato-Endocrinology. 2013;5(1):222–234.
MAHTANI, R.; SINGH, S.; NAIR, P. M. K.; SINGH, S. P.; GOYAL, M. Prolonged high dose daily oral vitamin D3 in the management of psoriasis: A retrospective chart analysis. IP Indian Journal of Clinical and Experimental Dermatology. 2025;11(3):288–296.
Aviso: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica individual. O uso de doses terapêuticas de vitamina D requer acompanhamento médico e monitorização clínica e laboratorial.



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